Imóveis

Como a licença paternidade pode beneficiar sua empresa

Como a licença paternidade pode beneficiar sua empresa

A licença paternidade deixou de ser apenas uma obrigação legal para se tornar um diferencial competitivo real no mercado de trabalho brasileiro. Empresas que tratam esse direito como estratégia — e não como custo — colhem resultados concretos: equipes mais engajadas, menor rotatividade e uma cultura organizacional que atrai talentos. Desde a ampliação do período de afastamento no Brasil, o debate sobre como estruturar essa política internamente ganhou força entre gestores de RH e CEOs. Entender o que está em jogo, tanto para o colaborador quanto para o negócio, é o primeiro passo para transformar uma exigência trabalhista em vantagem real.

O que a licença paternidade representa para o pai e para a família

Quando um colaborador se torna pai, os primeiros dias e semanas após o nascimento do filho são decisivos. Dormir pouco, reorganizar a rotina doméstica e apoiar a companheira no pós-parto são demandas que não desaparecem enquanto o pai está no escritório — elas simplesmente ficam represadas e voltam em forma de estresse, distração e queda de desempenho. A licença paternidade existe justamente para dar ao pai o espaço de estar presente nesse momento sem ter que dividir a atenção de forma fragmentada.

No Brasil, a legislação trabalhista prevê, pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), cinco dias de licença paternidade para a maioria dos trabalhadores. Empresas aderentes ao Programa Empresa Cidadã, regulamentado pela Lei nº 11.770/2008, podem ampliar esse período para até 20 dias corridos. Já para servidores públicos federais, a reforma de 2016 estabeleceu 20 dias como padrão. Esse cenário ainda está longe do ideal em termos de igualdade de gênero, mas representa um avanço real em relação ao que existia antes.

Do ponto de vista psicológico, a presença paterna nos primeiros dias de vida do bebê tem impacto direto no vínculo afetivo entre pai e filho. Pesquisas da área de psicologia do desenvolvimento apontam que pais que participam ativamente do período neonatal desenvolvem relações mais próximas com os filhos ao longo da infância. Esse vínculo, por sua vez, reduz o nível de ansiedade do colaborador no retorno ao trabalho — porque ele voltou tendo cumprido seu papel, não tendo fugido dele.

Há também um efeito direto sobre a saúde mental do trabalhador. Sentir que a empresa reconhece e respeita suas responsabilidades familiares gera um senso de pertencimento que vai muito além do salário. Esse é o tipo de lealdade que não se compra com benefícios superficiais, e sim com políticas que tratam o colaborador como pessoa inteira, não apenas como mão de obra.

Como a produtividade da equipe muda quando a empresa apoia os pais

Há uma lógica direta entre bem-estar do colaborador e desempenho no trabalho. Quando um pai retorna de uma licença bem estruturada, ele não volta apenas descansado — volta com a cabeça no lugar. A sensação de ter cumprido as responsabilidades familiares libera energia cognitiva que antes estava dividida entre o trabalho e a culpa de não estar em casa.

Os benefícios para a produtividade são concretos e mensuráveis. Entre os principais efeitos observados em empresas que adotam políticas de licença paternidade ampliada:

  • Redução do absenteísmo nos meses seguintes ao nascimento do filho, já que o colaborador não precisa usar licenças médicas ou faltas para resolver questões domésticas não resolvidas durante o período de afastamento;
  • Aumento do engajamento medido em pesquisas de clima organizacional, com pais relatando maior identificação com os valores da empresa;
  • Queda na rotatividade voluntária entre colaboradores que passaram pela experiência de uma licença bem gerida — trocar de empresa logo após um momento de vulnerabilidade familiar é uma decisão que poucos tomam quando se sentem apoiados;
  • Melhora no trabalho em equipe, pois a ausência planejada e comunicada com antecedência força a equipe a desenvolver redundância de funções e documentação de processos, o que fortalece a operação como um todo.

Existe ainda um efeito de cultura organizacional que se propaga. Quando um gestor ou líder de equipe tira a licença paternidade sem constrangimento, ele sinaliza para todos os outros colaboradores — homens e mulheres — que a empresa de fato pratica o que prega sobre equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Esse sinal vale mais do que qualquer campanha interna de endomarketing.

Empresas que ignoram esse aspecto pagam um preço invisível mas real: colaboradores que fingem estar bem enquanto acumulam ressentimento. O custo de substituir um profissional qualificado no Brasil, considerando recrutamento, treinamento e perda de produtividade durante a curva de aprendizado, pode chegar a 150% do salário anual do cargo — dado amplamente utilizado por consultorias de RH ao justificar investimentos em retenção.

Benefícios fiscais e obrigações legais que toda empresa precisa conhecer

O Programa Empresa Cidadã não é apenas uma boa prática — é também uma oportunidade fiscal. Empresas optantes pelo Lucro Real que aderem ao programa podem deduzir do Imposto de Renda Pessoa Jurídica (IRPJ) os valores pagos aos colaboradores durante os dias adicionais de licença, tanto maternidade quanto paternidade. A adesão ao programa é feita junto à Receita Federal, e a empresa se compromete a não demitir o colaborador durante o período de licença ampliada.

Do lado das obrigações legais, é preciso ter clareza sobre o que a lei exige. Os cinco dias de licença paternidade previstos na CLT são pagos diretamente pelo empregador e não geram nenhum reembolso do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) — diferente do que ocorre com a licença maternidade, cujo custo é ressarcido pela Previdência Social. Isso significa que o custo financeiro direto para a empresa é relativamente baixo quando se trata da licença mínima obrigatória.

Para as empresas que optam pela ampliação voluntária do período — seja via Empresa Cidadã, seja por política interna própria — o custo adicional precisa ser planejado no orçamento de RH. A boa notícia é que esse custo é previsível: diferente de afastamentos por doença ou acidentes, a licença paternidade tem data conhecida com antecedência, o que permite planejamento de cobertura de equipe sem urgência.

Empresas que descumprem a legislação trabalhista nessa área ficam expostas a autuações fiscais e reclamações na Justiça do Trabalho. O passivo trabalhista gerado por descumprimento de direitos relacionados à parentalidade tem crescido nos últimos anos, especialmente em setores onde a cultura ainda trata a licença paternidade como favor e não como direito.

Como estruturar uma política de licença paternidade que funcione na prática

Ter uma política no papel não é suficiente. O que define se a licença paternidade vai de fato funcionar na sua empresa é a combinação entre norma escrita, cultura vivida e processo operacional claro. Sem os três, a política vira letra morta — e o colaborador que tenta exercer o direito enfrenta pressão velada para não fazê-lo.

O primeiro passo prático é documentar o processo: quem o colaborador comunica, com quanto tempo de antecedência, quem cobre suas funções durante a ausência e como o retorno é feito. Esse documento deve estar acessível a todos os gestores, não apenas ao RH. Quando o gestor direto não sabe o que fazer, ele improvisa — e a improvisação costuma prejudicar o colaborador.

O segundo passo é treinar lideranças. Gestores que nunca passaram por uma situação de licença paternidade na equipe tendem a reagir com desconforto quando o momento chega. Treinamentos curtos e objetivos sobre como conduzir a conversa, planejar a cobertura e receber o colaborador de volta fazem diferença real no dia a dia.

Por fim, a empresa precisa criar um ambiente onde tirar a licença não seja visto como fraqueza ou falta de comprometimento. Isso passa por líderes que dão o exemplo. Quando o diretor de operações ou o gerente de produto tira a licença paternidade sem pedir desculpas, ele muda a narrativa para toda a organização. A mensagem que chega aos demais colaboradores é clara: aqui, cuidar da família e ser bom profissional não são coisas opostas.

Empresas que chegam a esse nível de maturidade na gestão de pessoas não precisam anunciar que são bons lugares para trabalhar. Os próprios colaboradores fazem isso — e o mercado de talentos percebe.

A redação

A equipe editorial reúne redatores especializados em conteúdo sobre empresas e gestão, responsáveis pela produção e publicação de artigos informativos nas diferentes áreas do site. Sobre nós